Arco e flecha na Europa há 54.000 anos

O consenso na arqueologia das origens humanas postulou que armas de propulsão mecânica, como combinações de arco e flecha ou lança-arremessador-e-dardo, apareceram abruptamente no registro arqueológico da Eurásia com a chegada de humanos anatômicos e comportamentais modernos e do Paleolítico Superior após 45 mil anos a 42 mil anos atrás.

Porém no artigo publicado na Science, os pesquisadores Laure Metz, Jason E. Lewis e Ludovic Slimak apresentaram a evidência mais antiga da tecnologia de arco e flecha na Eurásia na Gruta Mandrin na França mediterrânea.

Essas tecnologias de projéteis representam o histórico técnico da expansão dos humanos modernos durante sua primeira incursão na Europa, por volta de 54 mil anos atrás.

Tecnologia do Paleolítico Superior

A produção de artefatos líticos em Mandrin concentrou-se em minúsculas pontas de flechas, alguns com apenas 1 cm de comprimento. Esses achados, até então inéditos em conjuntos arqueológicos dessa época e representando uma principal diferença estrutural entre o grupo Neandertal, que também habitou essa região e a organização humana social e material moderna. Essas tecnologias podem ter dado aos humanos modernos uma vantagem competitiva sobre as sociedades neandertais locais.

A Gruta Mandrin é um abrigo rochoso abobadado com vista direta para o vale médio do rio Ródano. Mandrin registra uma sucessão arqueológica de referência, pois contém todas as fases atualmente conhecidas das últimas sociedades neandertais, até o surgimento da cultura do Paleolítico Superior.

Cada camada arqueológica produziu uma rica indústria lítica e vestígios paleontológicos. A camada denominada “E” rendeu 2267 elementos líticos atribuídos ao Neroniano, uma “cultura” inteiramente orientada para a produção de pontas Levallois padronizados. Essas pontas são um tipo distintivo de lascado da pedra, obtidos tecnologicamente após fases laminares.

A produção dessas pontas foi tecnicamente controlada e focada em duas categorias. A primeira, de pontas maiores de 30 a 60 mm de comprimento máximo. A segunda, de pontas microlíticas abaixo de 30 mm de comprimento máximo e às vezes tão pequenos quanto 10 mm, denominados no artigo como “nanopontas”.

Arco e flecha na Europa há 54.000 anos – Pontas líticas de Mandrin.
(A) Ponta grande (1) versus nanoponta (2). (B) Micropontas e nanopontas Neronianos; (1 a 3) nanopontas alongados, (4) nanopontas pontiagudas, (5 e 6) nanopontas e (7 e 8) micropontas. A escala gráfica é de 1 centavo de euro (diâmetro, 16,25 mm).

Arco e flecha na Europa há 54.000 anos – Pontas líticas de Mandrin.
(A) Ponta grande (1) versus nanoponta (2). (B) Micropontas e nanopontas Neronianos; (1 a 3) nanopontas alongados, (4) nanopontas pontiagudas, (5 e 6) nanopontas e (7 e 8) micropontas. A escala gráfica é de 1 centavo de euro (diâmetro, 16,25 mm).

Arco e flecha na Europa há 54.000 anos

A distinção entre essas duas categorias é tecnológica, não baseada no tamanho. As pontas maiores foram produzidos com base na tecnologia laminar, iniciada por uma extração de lâmina com crista e seguida pela produção de lâmina unipolar que configurou a geometria do núcleo para extrair pontas tecnologicamente bem definidas. Já as “nanopontas”, ou pontas microlíticas, feitas pelo Homo sapiens são muito mais delicadas e melhor elaboradas.

O artigo publicado na Science detalha todo o estudo feito sobre as descobertas de que humanos usavam arco e flecha na Europa há 54.000 anos.


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